15.11.09

eu nasci para o mar de frente para a locução do abismo




eu nasci para o mar de frente para a locução do abismo
para o suor febril e a lágrima povoada de fogo a odiar
a amar o puro o impuro o impressionante e o justo
entre o júbilo e a dor com asas e tatuagens de seda
num horizonte intacto num continente eu nasci
de frente para a liturgia de um espelho.




Maria Gomes




Mas que sei eu



Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu sei que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha



Ruy Belo




26.10.09



Quem me partiu foi o meu espelho
Disse-me o céu:
«Não me creias, eu jamais sou azul.»
Uma ilha bebeu o meu oceano
A minha pele é já o meu sudário.
Fui em socorro da estrela
tombada no jardim.
Tenho três caranguejos
na minha cabeça.
O meu poema resmunga
por ter um corpo.
Devolvi para a música
alguns restos da minha memória.
Ó minha única volúpia:
Deus é o obstáculo que erijo
entre mim mesmo e eu,
para não ter de compreender-me.



Alain Bosquet



21.10.09

Poema



Nuestro amor no está en nuestros respectivos
y castos genitales, nuestro amor
tampoco en nuestra boca ni en las manos:
todo nuestro amor guárdase con pálpito
bajo la sangre pura de los ojos.
Mi amor, tu amor esperan que la muerte
se robe los huesos, el diente y la uña,
esperan que en el valle solamente
tus ojos y mis ojos queden juntos,
mirándose ya fuera de sus órbitas,
más bien como dos astros, como uno.



Carlos Germán Belli




18.10.09

Despedida



Os seus rostos estavam pálidos
Quebravam-se os seus ais...

Como a neve de puras pétalas
Ou melhor as tuas mãos sobre os meus beijos
Caíam as folhas outonais




Guillaume Apollinaire